A importância da profissionalização do movimento vegano no Brasil

Autor: Lucas Alvarenga,

A profissionalização do movimento vegano no Brasil é parte de um processo crítico para a obtenção de grandes resultados efetivos rumo ao fim da exploração animal. Afinal, o Brasil ocupa papel de extrema relevância no cenário internacional como um dos maiores produtores, exportadores e consumidores de produtos de origem animal do mundo e, por outro lado, ainda não conseguiu organizar e amadurecer de forma profissional os movimentos de direitos animais.

O movimento Altruísmo Eficaz busca sempre lembrar que os animais sentem de forma igual independentemente do país onde estejam. Se buscamos o fim da exploração animal, precisamos atuar localmente, mas pensando globalmente.

Compreendida a importância do trabalho no Brasil, é fundamental pararmos para analisar como podemos promover as grandes mudanças sociais capazes de levar ao fim da exploração animal e que necessariamente dependem de mudanças culturais, corporativas, legislativas e tantas outras.

Como qualquer empresa, organização ou órgão, as ONGs e o trabalho de ativistas independentes têm muito mais chances de sucesso quando estão organizados e planejados. Uma ONG vegana deve ter a mentalidade de uma empresa. A diferença fundamental é que, enquanto a empresa tem como objetivo o lucro, a ONG vegana tem como objetivo salvar* animais. Qualquer empresa desqualificada, não profissional, sem metas, foco ou análise de resultados tem muito menos chances de obter lucro que outras empresas com esses pontos muito melhor desenvolvidos. Da mesma forma, uma ONG vegana desqualificada, não profissional e sem metas tem muito menos chances de ajudar animais do que outras ONGs ou ativistas com esses pontos melhor desenvolvidos.

Acredito que no Brasil ainda exista uma certa rejeição à processos e estratégias profissionais em algumas frentes de ativismo, pois muita gente os relaciona ao ‘‘corporativismo’’ que muitos têm rejeição, mas podemos – e devemos! – utilizar estratégias, profissionalismo e conhecimento corporativo para promover as grandes mudanças que queremos ver no mundo. A diferença é que utilizaremos estratégias, marketing e dados para impactar de forma positiva a maior quantidade de vidas possível, ao invés de utilizá-los para obter lucro. Para isso, considero as seguintes etapas como fundamentais para a profissionalização de qualquer frente de ativismo vegano no Brasil:

  1. Identificação da missão 
    Ainda que o fim da exploração animal total seja o objetivo final de todo ativista vegano, a definição da missão sempre buscará um objetivo que servirá como foco, compreendendo as possibilidades de atuação;
  2. Definição do foco do trabalho
    O foco é importante para que a maior parte dos esforços sejam direcionados com mais peso e força a fim de alcançar os maiores resultados visando a missão. No Brasil, muitas vezes existe mobilização nacional do movimento em assuntos específicos. Ainda que a ONG ou o ativista participe de mobilizações nacionais, o foco, baseado na missão, é importante para a obtenção de resultados concretos;
  3. Identificação dos objetivos de curto, médio e longo prazo
    Nossa atuação hoje será necessariamente diferente da de amanhã, pois é esperado que as condições externas sejam diferentes e que o trabalho esteja avançando;
  4. Definição das frentes de atuação e das estratégias
    Estratégias são temporais. Elas irão variar de acordo com as condições e os cenários internos e externos. Estratégias e abordagens podem funcionar bem hoje e não amanhã, ou vice-versa. A definição de estratégias, do ponto de vista pragmático, devem ser baseadas em dados e pesquisas, sempre visando o que funciona, e não baseadas em nosso instinto;
  5. Análise do alcance e do impacto de cada trabalho
    Para agirmos com eficiência, precisamos sempre buscar medir os resultados e os impactos do nosso trabalho, e tentar entender os possíveis impactos indiretos de cada um deles também. 
    Estratégias profissionais são sempre baseadas em dados e resultados. 

A importância do foco é crítica. Uma ONG ou ativista dispostos a atuar em todas as frentes têm chances bastante reduzidas de obter sucesso em qualquer uma delas. Adicionalmente, no Brasil, estamos expostos a muito mais cenas de maus tratos visíveis que muitos outros países do mundo. O advento da internet e de mídias sociais como o Whatsapp, por exemplo, nos possibilitam ficar a par de dezenas ou centenas de casos graves de sofrimento de centenas ou milhares de animais. Mas termos o foco do nosso trabalho na ‘’remediação’’ acaba fazendo no nosso trabalho um ‘‘enxuga gelo’’, caso não consigamos atuar na raiz e na prevenção de cada uma das causas de exploração animal.

 

*Salvar animais: O trabalho de educação vegana não necessariamente salva animais, mas previne o nascimento de animais que passariam suas vidas sob situação de exploração, miséria, sofrimento e condenados ao abate.

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Fonte: veganismoestrategico.com.br

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